Esperanto 125 anos

Ivan Eidt Colling

Os esperantistas estamos em festa hoje. Exatamente há 125 anos, no dia 26
de julho de 1887, foi lançado um livro de 40 páginas intitulado Internacia Lingvo
(“Língua Internacional”). O autor era um jovem médico polonês, Lázaro Luís Zamenhof
(Lejzer Ludwik Zamenhof), que assinou com o pseudônimo D-ro Esperanto (“Doutor
Esperanto”).

Esse pesudônimo significa “aquele que tem esperança”. Em pouco
tempo, “esperanto” passou a designar a língua proposta por Zamenhof.

O editor foi H. Kelter – que teve de mandar fundir tipos especiais para essa
edição – e o lançamento ocorreu em Varsóvia, atual capital da Polônia. Na época,
aquela região estava sob o domínio do Império Russo, motivo pelo qual o livro de 26
de julho de 1887 foi redigido em língua russa. No mesmo ano surgiram as edições em
polonês, francês e alemão, e em muitas outras línguas nos anos seguintes.

Um detalhe interessante: na época, na Rússia não vigorava o calendário
gregoriano; a data segundo o calendário juliano é 14 de julho.

O pequeno livro é composto de várias partes:
• um prefácio, com apresentação teórica e prática sobre o idioma e alguns textos
na língua então proposta. Dentre eles, destacam-se a oração “Pai Nosso”, um
excerto do livro de Gênesis (dez primeiros versículos), um poema de Heine
traduzido por Zamenhof e um poema original de Zamenhof: “Ho, mia kor’ ”
(“Oh, meu coração”). Não se pode dizer que Zamenhof fosse um homem
religioso. Provavelmente a escolha dos primeiros dois textos tenha sido feita
para facilitar a comparação com versões existentes em diversas línguas;
• uma folha que o leitor poderia destacar e enviar ao proponente do idioma, caso
assim o desejasse, comprometendo-se a aprender o idioma;
• um manual do idioma com o resumo da gramática. Trata-se do alfabeto e das
famosas 16 regras. Por causa disso, muitas pessoas pensam que o esperanto tem
somente 16 regras gramaticais; mas o que Zamenhof apresentou obviamente foi
apenas um resumo;
• um dicionário “internacional-russo” (ou seja, esperanto-russo), com 917
verbetes.

É de impressionar o fato de que esse modesto livro tenha dado início a uma verdadeira revolução no campo da interlinguística. Dentre as muitas línguas planejadas propostas, tanto línguas filosóficas a priori, como línguas a posteriori, o esperanto tornou-se a única que evoluiu de projeto para língua efetivamente falada, cuja comunidade apresenta um crescimento após o falecimento do proponente, com produção literária e existência de falantes nativos. O esperanto é um fenômeno único na história da humanidade.

O “Segundo livro da língua internacional” (Dua libro de l’ internacia lingvo) foi publicado em janeiro de 1888, com traduções de textos de Hans Christian Andersen e poemas. Entre eles, outro poema de Heine, muito provavelmente traduzido por Leo Belmont (que, portanto, teve poucos meses para dominar o idioma).

Tomasz Chmielik, professor do Curso de Pós-Graduação em Estudos Interlinguísticos da Universidade Adam Mickiewicz (Poznań, Polônia) afirma que a inclusão de traduções literárias e poemas originais já nos primeiros livros “provam que Zamenhof não concebeu o esperanto como uma simples língua auxiliar para a compreensão recíproca, mas tinha como objetivo uma língua completa, na qual a literatura tem grande importância”.

Gostaria de enfocar agora o poema original de Zamenhof que está no primeiro livro, e que portanto hoje também completa 125 anos de publicação: Ho, mia kor’.

Zamenhof, então com 27 anos de idade e médico recém-formado, não tinha recursos para financiar a publicação de seu livro, mas encontrou em seu futuro sogro, Aleksander Silbernik, o apoio necessário. Edmond Privat, em “Vida de Zamenhof”, conta-nos que Durante dois meses as provas de impressão estiveram à disposição do censor […]. Finalmente, a 14 de julho (de 1887) ele concedeu a permissão ao impressor. A obra naturalmente lhe parecia uma ingenuidade sem perigo. O autor estava irrequieto. De um lado a impaciência e de outro o temor o agitavam.

“Eu me achava muito excitado diante de tudo aquilo; eu sentia que me achava diante do Rubicão, e que a partir de quando minha brochura
aparecesse, não tinha mais possibilidade de recuar; eu sabia da sorte que esperava um médico, que dependia do público, se este o visse
como um fantasista, como um homem que se ocupava de ‘coisas à margem’; eu sentia que lançava no jogo toda a tranquilidade futura e a
minha vida e a de minha família; mas não podia abandonar a ideia que penetrara no meu corpo e no meu sangue, e… transpus o Rubicão.”

O Rubicão (Rubikono, em Esperanto, Rubicone em italiano) é um pequeno rio na Itália, mais especificamente: “pequeno rio entre o território de Roma e a Gália Cisalpina (12°26’E 44°10’N); atravessá-lo era proibido às legiões armadas”1. “Território de Roma” aqui se refere a Roma central, e não apenas à cidade de Roma. Em 49 a.C., César decidiu transpor o Rubicão, limite de sua província, conduzindo as tropas para Roma e deflagrando a guerra civil. Essa foi, portanto, uma decisão de César, sobre a qual ele deveria assumir toda a responsabilidade, e que teve importantes consequências na história de Roma. A palavra “Rubicão” está registrada na língua portuguesa, conforme atestam os dicionários Aurélio e Houaiss, sendo utilizada somente na locução “atravessar o Rubicão”: “tomar uma decisão temerária, enfrentando as consequências” (Aurélio); “decisão revolucionária; ato de insubordinação com o enfrentamento das consequências que possam advir” (Houaiss).

É com esse espírito que aquele jovem médico, sem grandes recursos, via a ousadia de seu ato. Humildemente, desafiaria Babel por meio de um livro com apenas 40 páginas. Enquanto trabalhava no idioma, elaborando regras, construindo seu léxico, verificando que sons seriam mais adequados à musicalidade da língua, definindo maneiras pelas quais afixos poderiam se combinar entre si e com os radicais, testando
exaustivamente a capacidade de expressar as idéias, as nuanças, os matizes do pensamento humano, enfim, enquanto trabalhava, solitário, na construção do idioma, não havia grandes riscos. Sair de seu isolamento, apresentar o trabalho de sua vida ao público, esse sim, era o grande desafio. O autor ficaria a partir de então – e de maneira irremediável – exposto ao público, público esse composto tanto de estudiosos sérios, verdadeiramente interessados na questão da comunicação internacional, como de mentes frívolas, capazes de resumir em gracejos de uma linha o trabalho de uma vida. Continuemos com Privat: “Naqueles dias Zamenhof escrevera uns versos de apenas duas estrofes: Ho, mia kor’ (Oh, meu coração). Soam algo como a difícil respiração de uma pessoa que haja subido correndo as escadas de cinco andares e, no alto, se conserva de pé, diante de uma porta.” López Luna, outro biógrafo de Zamenhof, comenta que o poema, que veio à luz no primeiro livro do idioma, talvez seja incompreensível para os que não sabem como e quando foi escrito.

Segue o texto original do poema de Zamenhof:

Ho, mia kor’, ne batu maltrankvile,
El mia brusto nun ne saltu for!
Jam teni min ne povas mi facile,
Ho, mia kor’!

Ho, mia kor’! Post longa laborado
Ĉu mi ne venkos en decida hor’!
Sufiĉe! trankviliĝu de l’batado,
Ho, mia kor’!

E três versões em português:

Texto traduzido do dicionário esperanto-esperanto NPIV (WARINGHIEN, DUC GONINAZ, 2002).

Meu coração, não batas tão depressa,
Do meu peito não saltes fora, não!
Já não posso conter a minha pressa,
Oh, meu coração!

Meu coração! Após tanto trabalho,
Não vencerei na exata ocasião!?
Basta, repousa agora esse teu malho,
Oh, meu coração!

Trad. A. Bonfim in PRIVAT (1960, p. 75-76).

Oh, meu coração, não batas inquieto,
Do meu peito agora não saltes!
Já não me posso conter facilmente,
Oh, meu coração!

Oh meu coração! Depois de longo trabalho
Não vencerei na hora decisiva?
Basta, cessa de bater,
Oh, meu coração!

Trad. C. Domingues in LÓPEZ LUNA (1959, p. 57).

Oh! coração, não batas tão nervoso,
Do peito agora não me saltes, não!
Já controlar-me é para mim penoso,
Oh! coração!

Oh! coração! Ao fim da trabalheira
Será que vou perder o galardão?
Já é demais! Repousa da canseira,
Oh! coração!

Trad. W. Francini (1985, p. 50).

Dificilmente aquele jovem médico polonês poderia imaginar que seu poema
seria musicado, mais de um século após haver sido escrito, por outros jovens, no
Brasil… jovens com idades próximas à que ele tinha ao compô-lo! (Falo da banda
Merlin, e do CD que leva o mesmo nome do poema.) Esse fato nos mostra como o
Esperanto é uma língua viva, que une não apenas seres humanos de diferentes origens,
raças, crenças ou não-crenças, diminuindo fronteiras de nacionalidade ou de gênero,
mas também une gerações e épocas distintas. Temos um legado cultural que se acumula
e se transmite ao longo do tempo, como ocorre com qualquer língua étnica. Cabe a nós,

esperantistas ou simpatizantes, manter e desenvolver essa cultura que é de todos, que é
nossa!

Em função do aniversário tão expressivo, especial importância terá o 97o
Congresso Mundial de Esperanto, a iniciar-se no próximo sábado, 28 de julho, na
cidade de Hanói, Vietnã, estendendo-se até 04 de agosto. Lá ocorrerá uma apresentação
do monólogo “Tiradentes”, pelo nosso caro Amarílio Carvalho, diante de um público
de cerca de 850 pessoas de 62 países. Logo após o Congresso Mundial acontecerá
o congresso da juventude esperantista, também em Hanói, e novamente Amarílio
marcará presença. Recebemos informações de que as apresentações por ele feitas na
Bélgica e na Holanda foram um sucesso! Lembramos a todos que o Amarílio esteve no
TEUNI-UFPR no mês passado, onde fez quatro apresentações em português e uma em
esperanto, em promoção conjunta da PEA e do CELIN-UFPR.

Curitiba, 26 de julho de 2012.

Sobre o autor

Ivan Eidt Colling é professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPR,
professor voluntário de esperanto do CELIN-UFPR e presidente da Associação
Paranaense de Esperanto (PEA). Atualmente está também cursando Pós-Graduação em
Estudos Interlinguísticos na Universidade Adam Mickiewicz em Poznań, Polônia.

Referências

FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.
2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

FRANCINI, Walter. Doutor Esperanto. 2. ed. Brasília: FEB, 1985.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua
portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LÓPEZ LUNA, A. Zamenhof – iniciador do esperanto. Tradução do espanhol ao
português: Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1959.

MERLIN. Ho! Mia kor’! Manaus: Sonopress; [Brasília]: Brazila Esperanto-Ligo, s.d. 1
CD.

PRIVAT, Edmond. A vida de Zamenhof. Tradução do esperanto ao português: Alberto
Bonfim. Rio de Janeiro: Cooperativa Cultural dos Esperantistas, 1960.

WARINGHIEN, Gaston (dir.); DUC GONINAZ, Michel (ĝen. gvid. rev.). La nova
plena ilustrita vortaro de Esperanto. Paris: Sennacieca Asocio Tutmonda (SAT),
2002.

ZAMENHOF, L.L. Ho, mia kor’. In: AULD, William (red.). Esperanta antologio:
poemoj 1887-1981. 2. eld. Rotterdam: Universala Esperanto-Asocio, 1984. p. 4.

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